MÃOS CAPA                                  

 

O Segundo Símbolo

Rogério Gomes¹

O vocabulário plástico de Ddaniela Aguilar apoia-se, incondicionalmente em extensão edificada nos anos de formação profissional como designer em Minas Gerais e nos contextos provenientes de convicções, estéticas e sócio-espirituais subsequentes.Este último pilar alimenta-se da caminhada solitária da artista através de sua própria e inquieta alma, redundando em conteúdo especial, sedimentar de linguajar expressivo, originando, na verdade, o fator ativo e competitivo que caracteriza um comportamento particularmente singular, catalisando ambições estéticas, criatividade, referenciais e força suficiente para impulsionar seu trabalho ao encontro da maturidade desejada. Ddaniela é uma artista em ebulição, sujeita, portanto, a mutações tanto nos aspectos semiológicos da obra quanto na espiritualidade exercitada. Essa dicotomia correlacional, arte-vida consigna uma cadeia inquebrável na hegemonia do pensamento cognitivo e posterior resultado plástico de Aguilar. Seu mundo tem sido dominado por uma produção que anula qualquer separação entre vida e arte.Eis então a premissa da criação artística, o seu berço e a sua essência. O tempo e o espaço se articulam numa poética peculiar e com ela, Ddaniela povoa o seu território de lembranças, experiências, descobertas, inventos, conquistas. O pensamento humano é, portanto e antes de tudo, uma cidade invisível, envolta na bruma. Cabe a ação artística dar forma e sentido a esse vazio, encher de ruídos esse silêncio, estruturar e tornar visível essa idéia, fazer do mundo a extensão do seu pensamento: local da ação. (1) “O Tejo não é maior do que o rio da minha aldeia”. (2)

Quando Ddaniela trocou as Minas Gerais por Alagoas, 1999, sua principal expectativa não pressupunha razões profissionais. Com passagens por Lisboa e Barcelona, Maceió não significaria essencialmente, um espaço preponderante para si mesma, envolvida com o universo do design-moda/objeto. Por conseguinte é fácil perceber a extensão emotiva de sua personalidade quando se trata de decisões decorrentes do coração e a subsequente influência desse permanente turbilhão de valores sensíveis em seu trabalho.Com passos largos, sem perder o foco bem definido por metas bem claras a respeito dos objetivos pretendidos, Ddaniela provoca desvios de trajeto com profundas conseqüências para a conjugação criativa da prática artística. Corajosamente percebe os resultados que tais concessões a si mesmas trarão para seu percurso. Foi assim ao resolver trocar o design, ou melhor, conferir a ele uma outra dimensão valorativa, seguindo um caminho contemporâneo: a consciência integrativa entre arte e design. Tudo isto quando já havia alcançado o reconhecimento repetindo o ato ao recusar-se permanecer estagnada em projetos de seguro poder comercial.

Para que esse mundo possa ser compreendido em seu sentido integral, para que ele tenha rumo, é preciso que ele seja seccionado, que seus espaços sejam repartidos; é preciso que as formas povoem seu território e venham a criar, assim, sentido e identidade. Na invenção do mundo criado pelo homem é preciso dividir, organizar e, depois, entender. Portanto, para o “entendimento” ser levado a bom tempo é preciso articular relações com o mundo real. Nessa equação emocionada entre o projeto e a construção, entre o sonho e o fato concreto, o homem cria “coisas” a partir de “coisas” naturais. Esse é o universo da criação artística, assim ela opera. (3) “Para se criar uma paisagem, o artista deve, antes de tudo, matar a paisagem anterior”. (4)

Em 2007 na exposição coletiva “Esta Rua é Minha”se plenamente integrado, se analisado em sua estrutura ideativa. Além da planificação de referências unívocas, ratifica a total ruptura com composições recentes, sem negar as reservas cognitivas de sua formação como contribuição efetiva ao seu novo olhar.Se as vibrações policrômicas das pinturas, cobrindo inteiramente o interior do objeto geométrico que, aludindo à concepção popular de barraco/oficina a artista chamou de Tenda.lhe consistência conceitual: Os Travesseiro e a Tenda.Objetiva estabelecer relações com o sonho, referencial que configura, literalmente, um conjunto de fenômenos psíquicos involuntários ocorridos aos seres humanos.

Este fenômeno coletivo acontece em diferentes escalas valorativas, há sonhos decorrentes do sono, há sonhos fantasia, sonhos desejos, aspirações, sonhos decisão, sonhos pesadelos. Ao travesseiro cabe a responsabilidade de apoiar a cabeça de quem deita para sonhar. É, portanto, o emblema receptáculo desse fato operado no corpo humano pelos agentes físicos, químicos, psíquicos ou quem sabe, puramente sobrenaturais. Assim instituídos, os travesseiros são transformados na representação estética dos sonhos.

O segundo símbolo – a Tenda – dimensiona a referência de elemento incidente ao imaginário popular como agregador de hábitos valorativos-representacionais. É lugar onde se comercializa. Está presente em feiras/ruelas, é a oficina para artesãos, os mais diversos, pode ser abrigo e barraco, sentido figurado e, nesses casos, amparo, proteção, acolhida. É ainda o oráculo da cartomante, do adivinho, do distribuidor de poções, “garrafadas” milagreiras. Reitera-se assim o objeto coletivo intercambiável, portanto, com os travesseiros enriquecidos pela impressão de padrões repetitivos-carimbos tipográficos, clichês, descartes gravados de marcas e endereços e, principalmente os sonhos de Ddaniela Aguilar transcritos em grafite, 144, por serem 144 mil os números do Apocalipse. Estavam reinventados ali os padrões tornados conhecidos pela artista nos anos anteriores. Tudo parecia muito frágil, mas, ao mesmo tempo, muito sólido, transcendendo a questão tempo-espaço, o agora e o anterior. Demonstrava o resultado de intensa percepção de si mesma das demandas de seu trabalho. Uma responsável apropriação de momento exclusivo, constituindo-se ponte ideal entre expressão sensitiva do eu e a contínua preocupação com a configuração estética emergente do domínio teórico-cultural de ontem e de hoje. Ddaniela Aguilar adicionara, também, a própria contextualidade novos atributos, incluindo incisiva atenção à conspiração sócio-política do século XXI. Não escapou, por exemplo, a conexão entre sonho e desejo, muito menos os limites atribuídos ao exercício de cidadania impostos pela sociedade inclusiva. Observe-se a preocupação com o coletivo-compra e venda, o cartão de crédito é sonho/desejo instituído por Aguilar para capitalizar sonho de outrem demonstrando sua atenção para as armadilhas corporativas que promovem inclusões/exclusões sócio-políticas.

Para Ana Cristina Carvalho, a obra “Sonhos Mutantes”, de Ddaniela Aguilar, revela um significado além da estética e da forma; contém uma reflexão psicológica e filosófica. A caverna feita de luz e cor que simboliza a consciência, contrapondo-se à ignorância e a letargia de um viver sem alma remete ao mito da Caverna, de Platão, e ao conto “O Espelho”, de Machado de Assis. O trabalho é um sinal de alerta às trevas de um viver sem alma e sem esperança, desafiando as dificuldades e os revezes que o destino reserva. A densidade contida na tenda de Ddaniela revela a alma que ri e que chora, revelando os desejos mais profundos da alma humana. No conto de Machado de Assis, ele afirma que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…)”; a função das duas é transmitir a vida para juntas completar o homem. No entanto, perder a alma que sonha significa não só perder uma parte da existência, mas perdê-la inteira. As paredes de cores e formas dos “Sonhos Mutantes”, de Ddaniela Aguilar, são como espelhos da alma a desvendar o nosso universo onírico, capazes de mudar vidas e ajudar a encontrar saídas.

Uma segunda referência ao trabalho de Ddaniela com material têxtil e material reciclado nos é permitido, agora, com a finalidade de entender em profundidade o pensamento plástico de Aguilar. Tomemos, portanto, a palavra de Magno Moraes Mello, quando, em 1992, discorre sobre a exposição “O lado avesso do guarda-roupa”:

Fazer arte ou mostrá-la hoje em dia, avança a um campo muito mais amplo do que a simples tela ou a tradicional escultura de materiais nobres. Se a arte é criar ou mesmo revolucionar no mundo das imagens, temos aqui o sentido do avesso ou a própria avessidade como a principal fonte de atenção quando pensamos no Grupo Wearable-MG.Renovando o conceito impecável da arte e da artwear em nossa cultura, busca-se nesse momento não o novo, o limpo ou aquilo que acabara de ser feito, mas, o refugado, aquilo que se joga fora na maioria das latas de lixo de todas as cidades. Esse é o mundo, um mundo cheio de histórias e que nos pertence como uma espécie de realidade paralela.A análise se foca no nosso cotidiano, consumista de objetos consumados, ou melhor, acabados e perfeitos. Esse mundo formará um outro descartável, como um reflexo do primeiro, gerando uma espécie de anti-matéria, algo que fica excomungado por sua aparência não nova, não tradicional, alguma coisa que se projeta para o OUTRO LADO à face usual e que será negligenciado e expurgado como um tempo de desprezo na linguagem contemporânea, se desvencilhando de qualquer conceito e se transformando em simples matéria-prima usável. A reabilitação desse mundo chamado aqui de anti-matéria, é o objetivo principal do  Wearable-MG , ou seja, reabilitar e reciclar não só produtos ou objetos mas , toda uma consciência, todo um processo cultural , a arte é a própria idéia de  artwear , objetivando lançar uma nova visibilidade artística muito além da realidade pura.O conceito aqui é fazer arte daquilo expelido pela sociedade, desenvolvendo em forma de uso renovável e, atual ao mesmo núcleo urbano que anteriormente o condenara à morte.Chega-se a pensar em Mondrian, Kandinsky ou mesmo Paul Klee, em algo místico com intenção de revelar realidades imutáveis, ansiando por uma arte de clareza e disciplina que refletisse de certa maneira as leis objetivas do universo.

Observando a complexa, mais lúcida, relação de Ddaniela Aguilar com seu trabalho, é possível compreender que este discurso atual apenas se inicia. Trata-se de um elaborado momento em permanente fluxo ascendente, sem que se saiba ainda a extensão de sua totalidade cujas escolhas, entre diversas possibilidades, idéias, conceitos, informações, condições perceptivo-psicológicas de si próprias, melhor se ajustam ao tempo presente. Ddaniela Aguilar tem plena consciência dessa demanda da mesma forma que percebeu o quanto é importante construir uma linguagem plástica envolvida com a consciência coletiva, sem prescindir de suas mais profundas origens.

* Rogério Gomes . Artista Plástico, fundador e diretor da Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, 1998-2006.
  1. Marcos   Lontra
  2. Fernando Pessoa
  3. Marcos Lontra
  4. Herbert Read

47

  1.                               Vídeo apresentação:https://vimeo.com/92835736

Ddaniela Aguilar - Alter ego a infinito III - 70x70 cm 2014

Ddaniela Aguilar - Alter ego a infinito II - 70x70cm 2014

Ddaniela Aguilar - Alter ego a infinito I - 70x70cm 2014

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s