Le Petit DASSINE. Cores e Intuições para um Oráculo LeNormand

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 Questões para uma  reportagem  realizada a GAZETA DE ALAGOAS – CADERNO B – 18/10/2016

1.Quem foi Dassine Oult Yemma, como você conheceu o trabalho dela e de que forma a sua arte conversa com o misticismo?

Desde sempre sou fascinada pela cultura dos povos do deserto e durante o período em que estive morando em Barcelona (2010/2012) cursando ao mesmo tempo Ilustração de livros Infantis, Arte e Ação Social e Arte Contemporânea, como parte dos meus estudos, fui convidada pela ONG CooperaAcciò para desenvolver uma ação artística com o projeto “Sonhos Mutantes” com mulheres no Mali.  Por razões de conflitos que aconteceram naquele país no momento, não foi possível terminar o projeto, porém, possibilitou vivenciar com mais atenção a história destes povos, principalmente os Tuaregs, cuja sabedoria de conhecer o deserto através das estrelas, atravessa o tempo com a intuição, oráculos e récitas de Dassine,  a maior poetisa deles.

Acredito em sincronicidades, encontros que chamamos por falta de outra explicação de acaso ou mágicos. Daí, talvez, tentar explicar o porquê de ter unido diferentes culturas como Madame Lenormand, cartomante famosa da França sec. XVIII e Dassine, sultana tuareg, África, faça o misticismo ficar nas entrelinhas.

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 2. É uma tenda. As pessoas entram nela, tocam e interagem com a exposição. A idéia é essa mesmo? Por quê?

Desde 2007 utilizo o formato “tenda” como estrutura para realizar as ações artísticas.  As pinturas em lonas e telas estão no teto, nas paredes e no chão. Possuem dimensões variáveis e estão dispostas em forma de tapetes superpostos, para que justamente se aproxime deste olhar do aconchego, do tocar, do usar. Gosto muito da idéia de pensar nesta interação como um recorte do tempo. Que propicia delimitar um espaço íntimo para abrigar os sonhos e as historias das pessoas. Na instalação ” Tenda”, os visitantes eram sempre convidados a escrever seus sonhos que depois eram transformados em outras obras ou lidos por outras pessoas em outros lugares onde as tendas fossem montadas e intervenções artísticas coletivas foram acontecendo.

No meio desse processo, percebeu-se que as cartas existiam de uma forma subjetiva e como desdobramento e evolução da obra, tornavam-se necessário materializar-se.  Então acontece, como explica a escritora Sonia Fariah, “a narrativa que propõe hibridar sonhos e histórias com elementos de cartomancia, sustentando o conceito da tenda que cruza campos mórficos e fura tempo e dimensões com sua linguagem simbólica”.

Materializar o oráculo é conceitualmente dá suporte para que a tenda esse espaço  intimo e criativo, seja recriado, simultaneamente, por várias pessoas.

3. Maceió não é o primeiro lugar que recebe a exposição. Que tipo de cuidado existe com as peças para que elas “sobrevivam” a todas essas interações?

A exposição foi realizada antes, em abril deste ano em São Paulo, na Monica Filgueiras Galeria de Arte e agora em Maceió, na Galeria Gamma. Em 2017/2018 irá para outras cidades.

As telas que estão no chão foram desenvolvidas para ter durabilidade, inclusive algumas delas desde 2007 e que já participaram de muitas exposições e workshops aqui e fora do país, ou seja, passando inclusive por imensas variações de temperatura.  A composição da mistura das tintas que utilizo são bastante resistentes, já resultado de muitos anos de pesquisa e experimentação.

 

  • Por quanto tempo você trabalhou nas obras? Quantas são e qual material você utilizou?

 

O oráculo foi elaborado entre 2011 até 2015 e logo, impresso em abril de 2016. As pinturas nas telas foram acontecendo durante todo este período, e em momentos de alguns meses de total imersão e dedicação ao ofício diário da pintura.

Inicialmente a Tenda estava composta por 36 telas que representam as 36 cartas do Oráculo. Porém, para esta mostra em Maceió, somente uma parte foi apresentada e a Tenda foi hibridada com as pinturas da série “Sonhos Mutantes” e da série “O Baile”.

Na verdade, tudo faz parte do mesmo processo, apropriação de contextos paralelos, que neste caso, as pinturas se referem aos sonhos e desejos meus e das pessoas que escreveram seus sonhos nos livros do projeto “Sonhos Mutantes”(www.sonhosmutantes.wordpress.com) realizado entre 2007/2013 em diferentes localidades.

Por ter formação também como designer têxtil, trabalhei em muitas tecelagens e estamparias, o que me propiciou entender bastante a alquimia da elaboração dos corantes, pigmentos, aglutinantes, fixadores e tudo que envolve o ofício. Então, sobre uma base de lona de algodão, utilizo os corantes têxteis e depois sobreposição de camadas das acrílicas. E finalizo com os dourados e acobreados. Utilizo sempre as cores básicas e vou elaborando a cartela de cores no momento. Muitos artistas desde sempre tiveram seus laboratórios e esta parte do processo me fascina.

 

 

  • O que você traz na sua versão do sistema simbólico Lenormand?

Madame Lenormand (1772-1843) foi a maior cartomante de seu tempo e seu nome representa toda uma tradição de leitura das cartas que vem de rotas antigas e culturas ancestrais.

O oráculo que originou a partir de seu nome a qual é chamado de “Le Petit Lenormand” possui um sistema simbólico com estrutura sistêmica, semântica e sintaxe próprias de fácil acesso de interpretação, daí também ter várias versões popularizadas no Brasil conhecido como “baralho cigano”.

Quando convidei a escritora e  pesquisadora em tarots Sonia Fariah para me dar o suporte conceitual da formatação desta nova versão, partiu dela o desejo de seguir a versão original, buscando em museus e pesquisadores em diversos países.

Daí, a partir destes conceitos confirmados, tornou-se possível amplificar e colocar uma lupa com consciência na criação mais artística.lp45a

6.Você já morou em Maceió por um tempo. O que estar aqui te somou como artista? Que tipo de referências você obteve? Foi um período de aprendizado também?

 

Morei em Maceió de 1999 a 2010. Encantei-me pela cidade e me encantarei sempre. Durante este período tive uma produção intensa em que foi possível realizar diversas experimentações e criações, desde os figurinos para teatro às esculturas e objetos de design utilizando resíduos e materiais pós-consumo, inclusive um feliz e agradecido prêmio “Arnon de Mello de desenvolvimento sustentável (2003).

Considero o período rico de imenso aprendizado e milhões de referências.

Desenvolvi muitos projetos, entre eles o mais impactante, que foi juntamente com os artistas visuais Vera Gamma e Rogério Gomes, entre 2005 a 2009 o Galpão 72, que ficava situado na comunidade do Verde em Jaraguá e que também, como parte de nossas propostas, realizamos o projeto “Esta rua é minha, esta rua é nossa”, com as crianças e adolescentes desta comunidade.

Desta interação com elas e com a comunidade, nasceu a inspiração pra colocar as telas dispostas em forma de tapetes e cortinas, e dai surge a Tenda.

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7. As cartas contam uma história? É sobre isso o livro que será lançado com Sonia Fariah?

 

Sim, as cartas sempre contam uma história. Ao embaralhar e jogar, a primeira carta irá sinalizar qual é a questão. E assim, a narrativa se inicia e provoca a intuição, a coletar sonhos e conexões com mensagens do inconsciente individual e coletivo, nas possibilidades dos vastos territórios que nos habitam.

Quem guarda o oráculo e coloca as cartas estende o seu espaço íntimo para que ele seja suficientemente consistente para sustentar a presença de duas pessoas diferentes. Somente com esse gesto o tempo já muda e as pessoas começam a se organizar em torno de uma narrativa humana transformadora.

O livreto acompanha agora as cartas e contém o resumo do livro desenvolvido pela Sonia Fariah que irá detalhar todo o oráculo Lenormand e seus aspectos sistêmicos, e será lançado no segundo semestre de 2017.

Enquanto isso e paralelo a tudo, a Tenda se comporta como viajante do tempo, das  cartas do Oráculo “Le Petit Dassine”. Cores e intuições celebram.

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fotos:Luisa Patury / Tamires Cassella/acervo da artista

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