O QUE SENTE O CORAÇÃO

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Sobre o que é o amor
Sobre que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar a um objetivo num instante

Sobre o que é o amor”

Raul Seixas

I
A autofagia da sobrevivência é, sem dúvida, o maior desafio na sobrevivência dos artistas em todos os tempos. Nascida em Governador Valadares, Minas Gerais, Ddaniela Aguilar possui extrema ligação com este rastro da vida material herdada pelo afeto plenamente construído de um criador, seu avô Julio Aguilar, a grande reincidência no seu caminho, cuja tradução é o fazer constante no ateliê instalado na fazenda. Uma dicotomia entre os afazeres de um homem da terra e a necessidade de criar suas selas e objetos dentro do cotidiano por meio da arte do couro e dos metais, da madeira, enfim, a mesma visão das artes arcaicas que povoam o sertão brasileiro, como a obra de Espedito Seleiro.

São tradições que operam a arte dos cavaleiros que comandam a terra, cavalgando, atravessando a caatinga e o cerrado, onde a beleza da moda em couro serve para equilibrar o corpo sobre os animais e, sem rasgar a pele, fornecer a travessia entre tempos e regiões, sobre o plano e a poeira da terra e das montanhas. Epigrama da existência, por assim dizer, a pele que recobre o homem e vem dos animais, onde eles não são escassos porque foram domesticáveis. E se o couro não está na obra de Ddaniela Aguilar como matéria, ele está como metáfora dos tecidos que vão vestir a pele e a alma da artista.

É uma arte nascida, crescida e criada entre caminhos e paisagens.

Símbolo de caminhos celtas hispânicos, o sertão brasileiro é povoado pela luz e pela natureza que, como um piscar de olhos, pode ser o amanhecer da alma que se encolhe e expande como quando olhamos a luz do sol entre galhos, no soslaio que somente os olhos de quem caminha entre espinhos e rochas se habituaram para encontrar o plano e vermelho da terra sobre a qual repousa o céu. Terras do Brasil de multicultura antropológica e religiosa, onde a mítica do viajar estrutura nossas memórias no contínuo “fechar de modo entreaberto” cobogós da alma que traduzem a arquitetura andaluza sobre as nossas terras mineiras e de norte a sul dos nossos nortes e nordestes globais. Que não são lugares, e sim indumentárias da seca e da fortuna que se movem pelo globo terrestre por meio da alma em deslocamento. Ddaniela passou pelo norte do Espírito Santo, Cristal, Governador Valadares, Belo Horizonte, Lisboa, Barcelona, Vila Velha, Maceió. Caminhar pela sua pintura é fazer a mesma travessia, em que sigilos e espirais da cor e do invisível abrem caminhos e portais que utilizam, por vezes, chaves concêntricas e chaves excêntricas.

Ela criou na sua obra dialética do efêmero, colocando o efêmero e a cultura no mesmo lugar, na mesma apreensão de um caminho cuja lógica é a pausa nômade, a restituição do céu, a transição do ser, o corpo do amor em movimento, que se movimenta entre as culturas sem perder a própria origem.

Se o couro é a roupa dos sertanejos, o tecido é a veste universal, que vai da indumentária à tenda que restitui a casa das cores traduzidas por pigmentos reativos, estruturas espirais e simbólicas entre luzes douradas, o abrigo e a mobilidade da morada de luzes continuamente acesas, que não precisam de eterno retorno. Há uma veste única quando a nossa consciência transita o movimento onírico de suas obras. A veste monástica que cobre corpos santos torna-se a veste da nossa nudez soberana, a toda elevação espiritual e à gravidade literária de nossos corpos. É mais do que o sensorial e o terapêutico das esculturas moles de Lygia Clark. É como o mistério do mistério que nasce das contemplações mais íntimas que a mim fizeram perceber e transportar para um templo budista no mistério andaluz: a Stupa de Benalmádena.

Na obra “Códigos do agora”, a escansão do silêncio se torna visível por um conjunto de mãos que sobem junto com a temporalidade das árvores, preferindo ser a metamorfose estática ao contrário da ambulante, em que a fala continua é o invisível movimento das árvores; o nômade e o permanente, que contrariam a funcionalidade da vida e o significado imóvel das palavras. Arte e sonho são a mesma estrutura na obra de Ddaniela Aguilar, e é nesta fronteira que seus sigilos e espirais colocam a pintura como travessias do tecido e não do tecido como suporte da pintura.

E não são pigmentos reativos que compõem a pintura, e sim tecidos que atravessam desertos, como a roupa dos tuaregues, as africanas que colorem a alma do Brasil, as mulheres do Mali, nossas guerreiras da seca. A moda em Ddaniela Aguilar está além da moda. A indumentária é a matéria primordial de proteção da primeira morada, do corpo e da percepção que sonham, e o desejo do design de Ddaniela Aguilar são o grande desafio da artista para si mesma, sua pessoa e sua arte diante da vida, uma espécie de armadura de objetos funcionais que a desafiam a retornar para sua percepção onírica para a realidade da vida, transformando a ideia do sonho em liberdade contínua no seu próprio fazer aprendido das terras de sua infância. A moda, o têxtil, a interpretação corporal do tempo transformam a palpitação do coração na expressão primordial do tempo, na contagem dos segundos num relógio. Daí vem o seu desafio: transcender a funcionalidade para compor mundos onde o espaço, o cenário imaginado, sem palco, sem o set de cinema, possa se transformar na ação contínua da paisagem, como as suas obras cercadas pela atmosfera real de Pedra Azul.

II

Jogo das revoadas | No coração-segundo o segredo andaluz, que perpassa nossos olhos que agora estão aqui e povoam a paisagem de horizonte impossível, como se o único vir a tornar possível a paisagem sem descrição de Ddaniela Aguilar fosse a única viagem possível para enxergarmos a sua concreta e onírica paisagem abstrata.

Revoada das mãos
Para mim, a arte é o viver.
Chave excêntrica e chave concêntrica.
A fé no amanhã vem dos códigos do agora.
A travessia do sol
Luz interna
A pintura que atravessa corpos
A cor que atravessa os tecidos
Le noire doré
Sigilos
O amor é o canto mais longínquo que protege o caminho dos viajantes.
Quando a arte transcende o oracular e o simbólico.

A obra de Ddaniela Aguilar nasceu em Minas Gerais; é uma obra que reflete a travessia sobre o mundo, importa o caminho que atravessa os lugares.

O fazedor de selas nem sempre cavalga pelo mundo.
E esse caminho que eu mesma escolhi não é tão fácil seguir por ter onde voltar.
A arte é o viver, o que sente o coração
Revoar das mãos, códigos do agora.
Meus olhos são teus; sem teu olhar, minhas montanhas não se abrem, nossos olhos não voam
O que sente o coração
Para e caminha

Saulo di Tarso | artista visual, curador. Espírito Santo, São Paulo, maio de 2026.

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