
Dassine, Lenormand e Ddaniela, um olhar*
Dassine veio em um sonho. Antes dela, um homem azul, guardião de rotas e caminhos. Entre os tuaregues, são os homens que cobrem o rosto, envoltos em panos e magia seguem em caravanas. Eles são temidos. Quem vê suas espadas, lanças e escudos não suspeita que esses homens vivam em igualdade com suas mulheres e nem que se deixem seduzir ao som de seus violinos tocados ao luar. Dassine é uma mulher tuaregue que faz poesia. Ela brilha sob o sol do deserto, arde de amor e vê alma em tudo o que existe. Ambientes exóticos, evasões e pausas são alentadores. Dar um pulo no futuro também. Parece que em algum momento, precisamos nos inventar. O tempo nos atravessa e não nos damos conta disso, mas quando cruzamos um território e nos encontramos com outras pessoas que também estão fazendo um movimento, parece que o tempo para um pouquinho para as histórias.
Lenormand é a mulher por trás de um dos oráculos mais populares em nossa cultura. Ela viveu nos tempos da Revolução Francesa e parece ter incomodado Napoleão. Obteve prestígio, fama e fortuna. Após a sua morte, um sobrinho, talvez nem fosse, assinou o encarte de instruções de um baralho publicado na Alemanha, dizendo que era daquele jeito que Madame lia as cartas. É o que conhecemos como o Baralho Lenormand. Madame Lenormand foi a cartomante mais importante de seu tempo. Seu nome representa toda a tradição de leitura das cartas da Europa daquela época. Quando falamos Lenormand nos referimos, por extensão, a Etteilla, ao Jogo Piquet, ao Jogo da Esperança de Kaspar Hechtel e aos baralhos usados nos cafés vienenses. Lenormand é trama urdida sobre fios antigos, vindos da Turquia, das rotas ciganas e de culturas ancestrais.
Ddaniela Aguilar é um olhar para essas duas mulheres. A alma de artista reconhece espaços de sonho e de vazio. Uma atravessa territórios, a outra atravessa o tempo. Nos versos e nas informações do futuro tem a alma de uma mulher que sonha. A artista abriga em suas tendas os sonhos próprios e os sonhos de outras pessoas.
A tenda é uma das primeiras formas de casa de que se tem registro. Uma forma simples de delimitar o território, criando o espaço íntimo dentro dos seus contornos. Mobilidade para povos viajantes, caravanas e rotas comerciais. Sobre uma urdidura irregular, a experiência humana em movimento tramou conexões ao acaso, um caldo particular para genes, palavras e destinos. A tenda da artista é uma viagem no tempo. Os campos mórficos abrem a leitura das informações cifradas nas imagens dos sonhos e nas histórias das pessoas. As paredes flexíveis de sua tenda possibilitam um assentamento momentâneo, breve e profundo. Um tipo de presença que provoca súbita clareza de que o tempo nos atravessa e leva com ele as nossas historias. Um tipo de presença que fura o tempo quando busca no outro a parte da historia que ainda não foi revelada. Nessa sinergia de convívio entre homens, sonhos e palavras, o campo se organiza e sustenta o fluxo da vida. Uma construção coletiva onde tudo cabe. Toda gente, todo sentimento, todo desejo. Dassines e Lenormands. É na intimidade da tenda que a artista convida quem chega a tomar as cartas e abrir o seu jogo. O pretexto perfeito para jogar conversa e fisgar o sonho, que desta vez, vem hibridado com elementos de cartomancia
Quando a historia começa, temos apenas o vazio. Uma pessoa … e as cartas.
(2016)*Escritos: Sonia Fariah – livro: Le Petit Dassine
EXPOSIÇÃO III
PARA FALAR DE AMOR
Experimento Oracular. Performance Art (2024)
10/2024 Antigo Noviciado Ipiranga/SP


Qual é o seu jogo?
O oráculo tem algo de divino. Através dele, alguém profere palavras. Uma pessoa embaralha as cartas e escolhe duas – um substantivo e um adjetivo. Ela deixa de ser apenas carta e se transforma em destino?

Será que se pode acreditar nisso? “faça boas perguntas e terá boas repostas”

A cartomancia é um tipo de oráculo que sempre esteve presente em grande parte do imaginário coletivo humano. Embora muitas vezes velada, espalhou-se através das ondas migratórias que movimentam as pessoas ao redor do mundo. Como sistema simbólico, a cartomancia instiga e permite a travessia do tempo, revelando o que ainda não foi mostrado.
Le Petit Dassine é uma versão do Le Petit Lenormand, um oráculo entrelaçado a fios antigos, inspirados pela leitura da borra de café, pelas rotas e por culturas ancestrais.
O jogo completo, conhecido como Grand Tableau, é composto por 36 cartas, mais uma carta não numerada que funciona como uma espécie de lupa (Dassine), além de 2 cartas extras – dama e cavalheiro.


Ação /
1.Convidar 11 pessoas por vez/ aleatórias ( ou inscritas previamente), para experienciar o aroma das raizes de vetiver que estarão disponíveis tipo sachê( o vetiver irá relaxar e ao mesmo tempo abrir o campo sensorial). Ao mesmo tempo se conectar a uma questão relacionado a amor, e logo, será entregue a cada participante um deck/oráculo com 39 cartas. Pedir para embaralhar e tirar 2 cartas (não dizer a pergunta, somente pensar).
2.Todos irão tirar ao mesmo tempo, para que tenham um campo interconectado.
- A artista irá ler estas cartas, respondendo com perguntas interpretativas.
- A artista busca na Instalação as duas cartas oculta/espelhada que se referem a jogada do participante que irá gerar mais uma resposta/pergunta. (a carta oculta será mostrada através da instalação- o verso das cápsulas.
- A pessoa poderá escolher qual jogo/ resposta será o caminho que escolhe para si e então (somente as duas cartas) levar para si: O jogo real ou o oculto/o espelho. O consciente ou o subconsciente. O visível ou o invisível.
- Finalizando, a Artista irá abrir e ler 2 cartas para o grupo, representando a leitura de campo coletivo.
- serão então utilizados 12 baralhos ( cada convidado utilizará um e levará como presente/símbolo somente 2 cartas ). O restante das cartas serão recolhidas, ficarão com a Artista, como resíduo de memória coletiva e utilizar em uma futura obra posterior.
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Ação Pós – O que dizer o que calar?A sequência de cartas formada pela tiragem dos participantes será disposta no Grand Tableau. O que se manifestou no campo gerará o fio condutor para explorar narrativas e possibilidades. As cartas que podem se repetir e as cartas ausentes serão as intensidades que permitirão as diversas sobreposições de contexto, dimensões, tempos e significados possíveis. No jogo, as cartas no Grand Tableau oferecem um lugar, um contexto, uma referência dentro das tramas. É na rede de significados entrelaçados entre as diferentes camadas das cartas que as narrativas acontecem. As cartas individuais de cada pessoa, que inicialmente falam de modo particular, se misturam com as cartas dos outros participantes, compondo uma grande narrativa coletiva. Neste sistema simbólico, as cartas se mesclam e geram novos significados e imagens, seguindo uma semântica e sintaxe próprias. Descosturam-se os conteúdos das partes para compor um todo surpreendente.
O Lenormand é uma teia de referências cruzadas, simultâneas e complexas. As cartas cooperam entre si, atravessam dimensões e se adaptam às narrativas. Seus significados se transformam quando cercadas por outras cartas. Elas se hibridam, abdicando de seus sentidos individuais em prol da narrativa. Com o Lenormand, aprende-se que o contexto e o tempo influenciam quase tudo.
Será mesmo que acredito em destino?

Por que as cartas?
O oráculo Le Petit Dassine é um objeto múltiplo, impresso, concebido como parte do desdobramento do projeto Sonhos Mutantes (www.sonhosmutantes.wordpress.com), idealizado pela artista visual Ddaniela Aguilar. Desde 2007, a artista vem desenvolvendo ações e instalações baseadas em memórias de sonhos oníricos e desejos. A partir das experiências e percepções das pessoas que participavam dessas ações, surgiu a ideia de hibridizar sonhos e histórias com elementos da cartomancia, criando um recorte que permitisse dimensionar o que reverberava além das questões iniciais. Em 2011, ela deu início a uma pesquisa aprofundada sobre oráculos e, para esse processo, convidou a escritora e cartomante Sonia Fariah para colaborar na construção do Le Petit Dassine – um oráculo ilustrado por Ddaniela, inspirado no Le Petit Lenormand, famoso conjunto de cartas de Madame Lenormand, uma vidente de grande prestígio na corte francesa do final do século XVIII, popularmente conhecido no Brasil como o baralho cigano. Em 2016, o projeto foi apresentado ao público na exposição “Le Petit Dassine: Caminhos, Escolhas e Destino”, realizada em São Paulo, na Galeria de Arte Monica Filgueiras, e, alguns meses depois, em Maceió, na Galeria Gamma. Em ambas as exposições, o oráculo integrou-se à instalação A Tenda, uma estrutura que muda de tamanho e forma conforme o espaço expositivo. A instalação é composta por uma série de pinturas que sintetizam o registro de memórias de sonhos e desejos, dispostas como tapetes sobrepostos, cobrindo parcialmente as paredes, o teto e o chão. Um espaço-território para vivências e compartilhamentos coletivos, onde ocorrem desde trocas simbólicas de memórias oníricas e desejos até laboratórios experimentais com o Le Petit Dassine.


EXPOSIÇÃO II
Le Petit DASSINE – Caminhos: Escolhas e Destino
Instalação e Ação. (2016)
07 a 30/04/2016 Mônica Filgueiras Galeria de Arte/SP
A artista abriga em suas tendas os sonhos próprios e os sonhos de outras pessoas. A tenda é uma das primeiras formas de casa de que se tem registro. Uma forma simples de delimitar o território, criando o espaço intimo. Mobilidade para povos viajantes, caravanas e rotas comerciais. A experiência humana em movimento sobre uma urdidura irregular tramou conexões ao acaso, um caldo particular para genes, palavras e destinos. A tenda da artista é uma viagem no tempo. Um acesso possibilitado por campos mórficos que propiciam a leitura ativadora de informações cifradas nas imagens dos sonhos e nas historias das pessoas. As paredes flexíveis de sua tenda possibilitam um assentamento momentâneo, breve e profundo. Um tipo de presença que provoca a súbita clareza de que o tempo nos atravessa e leva com ele as nossas historias. Um tipo de presença que fura o tempo quando busca no outro a parte da historia que ainda não foi revelada. Nessa sinergia de convívio entre homens, sonhos e palavras, o campo se organiza e sustenta o fluxo da vida através de historias que trazem os sinais do caminho do viajante. Uma construção coletiva, onde tudo cabe. Toda gente, todo sentimento, todo desejo. É na intimidade da tenda que a artista convida quem chega a tomar as cartas e abrir o seu jogo. “O pretexto perfeito para jogar conversa e fisgar o sonho, que dessa vez vem hibridado com elementos de cartomancia.
Sonia Fariah
# A Tenda/instalação/obra: Composta por 36 pinturas – corantes reativos e acrílica s//tela, em dimensões variadas , dispostas em forma de tapetes superpostos que formam paredes, chão e parte do teto. Obras que atuam únicas ou em conjunto. Dimensionam a síntese do registro de memória das cartas, utilizando os números como elementos de dinamização.



Le Petit Dassine – 40 cartas 7,5x15cm +Livreto/94 págs. + Lenço “Le Grand Tableau”. Ilustrações a partir das pesquisas dos baralhos Lenormand e fragmentos das pinturas em acrílico s/tela da série Arabescos – Sonhos Mutantes 2007/2011.
A Tenda – Instalação – Pinturas ( corantes reativos e acrílica s/tela), em dimensões variadas, dispostas em forma de tapetes superpostos que formam paredes, chão e parte do teto. Obras que atuam únicas ou em conjunto. Dimensionam a síntese de memórias das cartas, utilizando os números como elementos de dinamização.
EXPOSIÇÃO III
A Tenda e Le Petit DASSINE – Cores e intuições para um Oráculo Lenormand
Instalação e Ação. (2016)
27/09 à 11/11/2016 Galeria Gamma/Maceió/AL
A Tenda se comporta como viajante do tempo, das cartas do Oráculo “Le Petit Dassine”.O oráculo Le Petit Dassine foi elaborado entre 2011 até 2015 e logo, impresso em abril de 2016. As pinturas nas telas foram acontecendo durante todo este período.Inicialmente a Tenda estava composta por 36 telas que representam as 36 cartas do Oráculo. Porém, para esta Exposição, somente uma parte foi apresentada e a Tenda foi hibridada com as pinturas da série “Sonhos Mutantes” e da série “O Baile”.Tudo faz parte do mesmo processo, com apropriação de contextos paralelos, que neste caso, as pinturas se referem aos sonhos e desejos da artista interagindo como um recorte do tempo, e propicia delimitar um espaço íntimo para abrigar os sonhos e as historias das pessoas.


















Questões para uma reportagem realizada a GAZETA DE ALAGOAS – CADERNO B .18/10/2016
Quem foi Dassine Oult Yemma, como você conheceu o trabalho dela e de que forma a sua arte conversa com o misticismo? Desde sempre sou fascinada pela cultura dos povos do deserto e durante o período em que estive morando em Barcelona (2010/2012) cursando ao mesmo tempo Ilustração de livros Infantis, Arte e Ação Social e Arte Contemporânea, como parte dos meus estudos, fui convidada pela ONG CooperaAcciò para desenvolver uma ação artística com o projeto “Sonhos Mutantes” com mulheres no Mali. Por razões de conflitos que aconteceram naquele país no momento, não foi possível terminar o projeto, porém, possibilitou vivenciar com mais atenção a história destes povos, principalmente os Tuaregs, cuja sabedoria de conhecer o deserto através das estrelas, atravessa o tempo com a intuição, oráculos e récitas de Dassine, a maior poetisa deles. Acredito em sincronicidades, encontros que chamamos por falta de outra explicação de acaso ou mágicos. Daí, talvez, tentar explicar o porquê de ter unido diferentes culturas como Madame Lenormand, cartomante famosa da França sec. XVIII e Dassine, sultana tuareg, África, faça o misticismo ficar nas entrelinhas.
É uma tenda. As pessoas entram nela, tocam e interagem com a exposição. A ideia é essa mesmo? Por quê? Desde 2007 utilizo o formato “tenda” como estrutura para realizar as ações artísticas. As pinturas em lonas e telas estão no teto, nas paredes e no chão. Possuem dimensões variáveis e estão dispostas em forma de tapetes superpostos, para que justamente se aproxime deste olhar do aconchego, do tocar, do usar. Gosto muito da ideia de pensar nesta interação como um recorte do tempo. Que propicia delimitar um espaço íntimo para abrigar os sonhos e as historias das pessoas. Na instalação ” Tenda”, os visitantes eram sempre convidados a escrever seus sonhos que depois eram transformados em outras obras ou lidos por outras pessoas em outros lugares onde as tendas fossem montadas e intervenções artísticas coletivas foram acontecendo. No meio desse processo, percebeu-se que as cartas existiam de uma forma subjetiva e como desdobramento e evolução da obra, tornavam-se necessário materializar-se. Então acontece, como explica a escritora Sonia Fariah, “a narrativa que propõe hibridar sonhos e histórias com elementos de cartomancia, sustentando o conceito da tenda que cruza campos mórficos e fura tempo e dimensões com sua linguagem simbólica”. Materializar o oráculo é conceitualmente dá suporte para que a tenda esse espaço intimo e criativo, seja recriado, simultaneamente, por várias pessoas.

Maceió não é o primeiro lugar que recebe a exposição. Que tipo de cuidado existe com as peças para que elas “sobrevivam” a todas essas interações?
A exposição foi realizada antes, em abril deste ano em São Paulo, na Monica Filgueiras Galeria de Arte e agora em Maceió, na Galeria Gamma. Em 2017/2018 irá para outras cidades. As telas que estão no chão foram desenvolvidas para ter durabilidade, inclusive algumas delas desde 2007 e que já participaram de muitas exposições e workshops aqui e fora do país, ou seja, passando inclusive por imensas variações de temperatura. A composição da mistura das tintas que utilizo são bastante resistentes, já resultado de muitos anos de pesquisa e experimentação.
Por quanto tempo você trabalhou nas obras? Quantas são e qual material você utilizou? O oráculo foi elaborado entre 2011 até 2015 e logo, impresso em abril de 2016. As pinturas nas telas foram acontecendo durante todo este período, e em momentos de alguns meses de total imersão e dedicação ao ofício diário da pintura. Inicialmente a Tenda estava composta por 36 telas que representam as 36 cartas do Oráculo. Porém, para esta mostra em Maceió, somente uma parte foi apresentada e a Tenda foi hibridada com as pinturas da série “Sonhos Mutantes” e da série “O Baile”. Na verdade, tudo faz parte do mesmo processo, apropriação de contextos paralelos, que neste caso, as pinturas se referem aos sonhos e desejos meus e das pessoas que escreveram seus sonhos nos livros do projeto “Sonhos Mutantes” realizado entre 2007/2013 em diferentes localidades. Por ter formação também como designer têxtil, trabalhei em muitas tecelagens e estamparias, o que me propiciou entender bastante a alquimia da elaboração dos corantes, pigmentos, aglutinantes, fixadores e tudo que envolve o ofício. Então, sobre uma base de lona de algodão, utilizo os corantes têxteis e depois sobreposição de camadas das acrílicas. E finalizo com os dourados e acobreados. Utilizo sempre as cores básicas e vou elaborando a cartela de cores no momento. Muitos artistas desde sempre tiveram seus laboratórios e esta parte do processo me fascina.

O que você traz na sua versão do sistema simbólico Lenormand? Madame Lenormand (1772-1843) foi a maior cartomante de seu tempo e seu nome representa toda uma tradição de leitura das cartas que vem de rotas antigas e culturas ancestrais. O oráculo que originou a partir de seu nome a qual é chamado de “Le Petit Lenormand” possui um sistema simbólico com estrutura sistêmica, semântica e sintaxe próprias de fácil acesso de interpretação, daí também ter várias versões popularizadas no Brasil conhecido como “baralho cigano”. Quando convidei a escritora e pesquisadora em tarots Sonia Fariah para me dar o suporte conceitual da formatação desta nova versão, partiu dela o desejo de seguir a versão original, buscando em museus e pesquisadores em diversos países. Daí, a partir destes conceitos confirmados, tornou-se possível amplificar e colocar uma lupa com consciência na criação mais artística.
Você já morou em Maceió por um tempo. O que estar aqui te somou como artista? Que tipo de referências você obteve? Foi um período de aprendizado também? Morei em Maceió de 1999 a 2010. Encantei-me pela cidade e me encantarei sempre. Durante este período tive uma produção intensa em que foi possível realizar diversas experimentações e criações, desde os figurinos para teatro às esculturas e objetos de design utilizando resíduos e materiais pós-consumo, inclusive um feliz e agradecido prêmio “Arnon de Mello de desenvolvimento sustentável (2003).Considero o período rico de imenso aprendizado e milhões de referências. Desenvolvi muitos projetos, entre eles o mais impactante, que foi juntamente com os artistas visuais Vera Gamma e Rogério Gomes, entre 2005 a 2009 o Galpão 72, que ficava situado na comunidade do Verde em Jaraguá e que também, como parte de nossas propostas, realizamos o projeto “Esta rua é minha, esta rua é nossa”, com as crianças e adolescentes desta comunidade. Desta interação com elas e com a comunidade, nasceu a inspiração pra colocar as telas dispostas em forma de tapetes e cortinas, e dai surge a Tenda.

As cartas contam uma história? É sobre isso o livro que será lançado com Sonia Fariah? Sim, as cartas sempre contam uma história. Ao embaralhar e jogar, a primeira carta irá sinalizar qual é a questão. E assim, a narrativa se inicia e provoca a intuição, a coletar sonhos e conexões com mensagens do inconsciente individual e coletivo, nas possibilidades dos vastos territórios que nos habitam. Quem guarda o oráculo e coloca as cartas estende o seu espaço íntimo para que ele seja suficientemente consistente para sustentar a presença de duas pessoas diferentes. Somente com esse gesto o tempo já muda e as pessoas começam a se organizar em torno de uma narrativa humana transformadora. Enquanto isso e paralelo a tudo, a Tenda se comporta como viajante do tempo, das cartas do Oráculo “Le Petit Dassine”. Cores e intuições celebram.
DASSINE /PROCESSOS









DASSINE LAB
De Le Petit Lenormand para Le Petit Dassine. O Lab Experimental do Oráculo se propõe a explorar Lenormand e Dassine – linguagem simbólica, apresentando suas palavras, conexões, contextos, territórios e narrativas. Lenormand é uma língua. Lenormand é verbal. As cartas são palavras. As imagens são lidas como palavras. Fora do jogo, lá nas paginas dos livros, uma carta tem muitas e muitas palavras dentro dela. Mas, quando lemos as cartas dentro de um jogo, escolhemos uma camada de significado. E quem nos diz qual é o sentido da carta é o contexto, a pergunta, o jogo. Lenormand é uma teia de referencias cruzadas, simultâneas, complexas. As cartas cooperam umas com as outras, atravessam dimensões e se adaptam à narrativa. Elas adquirem outros significados quando estão circundadas de outras cartas. As cartas se hibridam e mudam. Todas abdicam de sentidos a favor da narrativa. Aprendemos com LeNormand que o contexto e o tempo influenciam quase tudo. Nós nos perguntamos se há algo que seja bom por si mesmo…
Como falar Lenormand? Faça boas perguntas e receba boas respostas.

# Le Petit Dassine/objeto/múltiplo: baralho contendo 39 cartas, 14x7cm, acompanhado de livreto, 94 págs. e lenço impresso com o Grand Tableau.

#Ação:Dassine LAB: Experiência e vivência – Tenda e Cartomancia -a artista, a escritora e público convidado.
As cartas Le Petit Dassine e o livro que o acompanha são um convite para que as pessoas experimentem a tenda casa-corpo-território da artista, desde a leveza das histórias que são compostas no jogo das cartas , que é o suporte-pretexto para a formatação da narrativa. A semântica Lenormand é apresentada abrindo a riqueza infinita de significado das cartas, recurso para a leitura das palavras e formação das frases das historias. O livro traz a descrição completa das cartas, tiradas, jogos e técnicas de leituras. É um registro da tradição oral e do ensinamento de grandes cartomantes, tão somente para celebrar essas experiências e vivências na tenda. A cartomancia é território grande demais para essa incursão. O livro acata os limites de intimidade estabelecidos pelas paredes flexíveis da tenda e nele, por breves momentos, conduz o leitor por esse território imaginário, tecendo tramas e inferindo futuro.


